
Nascida a 29/01/1961 – Renascida a 24/01/2023.
Quando a médica me informou, há 30 anos atrás, que tinha herdado os Rins Poliquísticos do meu pai, caiu-me tudo, mas mesmo assim, só me lembrei de viver a vida o mais intensamente possível, negando a doença.
Os anos foram passando e apenas ia às consultas, primeiro anualmente, depois semestralmente e, por fim, o tempo foi passando e eu acompanhando o meu pai, que fez hemodiálise durante 15 anos na SPD da Amadora. Estava bem consciente da doença.
Quando, aos sessenta anos, a médica me informou de que se aproximava a altura de iniciar tratamento de hemodiálise, ainda pensei “Isto não está a acontecer. Eu? Eu, que ainda ando de mota, que não paro, que… que… que…” Mas não resolveu nada, a hemodiálise estava à minha espera. Fazia 61 anos no dia 29 de janeiro e o primeiro tratamento marcado para dia 26 de janeiro no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Sim senhora, grande prenda de anos!
Nessa mesma altura, a atitude altruísta da minha mulher manteve-se na ideia de me dar um rim, que deixou de ser uma ideia e passou a ser real. Iniciámos todo o processo e a bateria de exames necessários, sempre as duas presentes em todos os exames médicos, quer de uma, quer da outra.
O processo decorreu no Hospital de Santa Cruz pela equipa de dador vivo, chefiada pela Dra. Sara Querido. Chegada a compatibilidade, fomos confrontadas com a compatibilidade de 1 em 6. Não era o melhor, mas poderia ser viável. Tendo vindo o OK por parte de todos os intervenientes no início de dezembro, ficámos a aguardar a data da cirurgia com alguma ansiedade, mais da minha parte.
Surpresa das surpresas, pelas 23h do dia 23 de janeiro de 2023 (grande ano!), a Dra. Sara Querido telefonou, dizendo que tinha aparecido um rim de cadáver super compatível comigo, de 6 em 6 nos parâmetros de avaliação. Nem pensei duas vezes, só saber que ia poupar o rim da minha mulher e que estava a um dia de mudar de vida.
Fui logo para o hospital, apesar de ter sido informada de que não havia pressa, porque o rim estava a ser ainda colhido no Algarve. Chegada ao hospital, fui realizar os exames de protocolo, sempre com um acompanhamento 5 estrelas. Pensei que ia estar nervosa, mas fiquei apenas ansiosa porque estava a dois passos da minha liberdade.
Dormir foi difícil e ainda ouvi chegar o helicóptero pelas 5h da manhã. Se era o meu rim? Não sabia, mas eu queria acreditar que sim, que estava mais perto de mim. Sala de cirurgia pelas 8 horas e lembro-me de ir feliz, pensando que nada pode ser pior do que ir para a hemodiálise e estava preparada para enfrentar tudo de modo positivo.
Acordei na Unidade de Cuidados Intensivos sem dores (ricos analgésicos!). Deram-me logo o telemóvel para a mão, pois estava completamente acordada e super bem-disposta, para a situação. Ao fazer 62 anos no dia 29 de janeiro, a cirurgia dia 24 foi agora a melhor prenda do mundo! Oxigenoterapia, cateter no pescoço (para medicação injetável), dois drenos abdominais e a bendita algália.
O rim algarvio, que intitulei de Alfarroba, estava a trabalhar bastante bem logo de início. Ao terceiro dia já eu dominava a folha de registos e fazia a avaliação dos parâmetros que ainda hoje registo: peso, quantidade de líquidos ingeridos em 24 horas, quantidade de urina produzida em 24h, temperatura, pulso e tensão arterial duas vezes ao dia.
Ao décimo dia tive alta. Vim para casa com todas as recomendações, seguir à risca a medicação, continuar a registar os parâmetros pedidos, o compromisso de ir a todas as consultas (para já semanais), cumprir com as recomendações da nutricionista, não em relação ao que posso comer, mas ao que não posso devido a ter a imunidade baixa, como por exemplo saladas cruas, frutas com casca, derivados de leite que não sejam pasteurizados, enfim tudo o que não se deve consumir que possa ter bactérias, ferver bem os alimentos, etc.
Passaram-se dois meses e meio e sinto-me muito bem e feliz. A quem ache que pode ter medos, receios, ou que o processo parece um “bicho papão”, caso sejam chamados para um transplante, não tenham receios e acreditem nos vossos médicos e que podem mudar a vossa vida.
Tive conhecimento de que há pessoas que recusam o transplante quando são chamadas, por medo. Quero desde já agradecer: À minha mulher, que me acompanhou em tudo e que era a minha dadora viva, caso não tivesse aparecido este Rim.
À equipa de médica de dador vivo, Dra. Sara Querido e ao Prof. Dr. André Weigert. À equipa de cirurgia do Dr. Belarmino. A todos os enfermeiros e auxiliares da UCI. A todos os que me ajudaram e proporcionaram a minha recuperação no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide.
Por fim, mas não menos importante, agradeço a todas as pessoas que se permitem doar os seus órgãos, seja em vida ou depois de falecer, mudando assim a vida de muitas pessoas.