
A história que vos vou contar é a minha, mas podia ser a de qualquer pessoa a quem um dia a vida decidiu trocar as voltas. É a história de alguém que às vezes ouviu os outros, e muitas vezes teve que parar para se ouvir a si mesma. É história de alguém com mil sonhos por cumprir, que acredita que o importante no final de cada dia é não deixar de acreditar.
Estava a estudar intensamente para um exame quando surgiram os primeiros sinais de cansaço e falta de apetite. Sempre tinha sido uma jovem saudável, talvez por isso quando fui ao médico foi simples diagnosticar excesso de stress.
Tomei medicação para o apetite e segui a minha vida agitada de jovem universitária. Mas o cansaço perdurou e a falta de fome também, mais tarde chegaram as quebras de tensão, a falta de sono e a perda exagerada de peso e eu, insensata, escondi de todas as pessoas, inventei desculpas para a família e para os amigos.
Mas três meses depois do primeiro sintoma, já não dava para esconder os sinais. Fui ao médico e o diagnóstico chegou, tinha insuficiência renal. Os meus rins já praticamente não funcionavam, estava com dias de vida e já não havia escolha, tinha que fazer diálise e esperar um transplante renal.
Naquele momento não pensei na diálise ou no transplante, pensei na minha vida, na faculdade, naquilo que iria acontecer à vida normal e cheia de objetivos traçados que tinha idealizado para mim. Disseram-me para ter calma, para viver uma coisa de cada vez e então foi isso que fiz.
Nas semanas seguintes dediquei-me a conhecer o meu novo mundo. Passei o Natal, o Ano Novo e o meu aniversário internada. Aí mesmo, sem saber, comecei a tomar consciência de que a minha vida nunca mais ia ser a mesma. Em vinte anos de vida nunca tinha parado para pensar que algo podia trocar-me as voltas e agora ali estava eu.
Decidi parar o curso por um semestre, queria adaptar-me e tinha medo de voltar à faculdade e não ser capaz de fazer tudo ao mesmo tempo, mas sentia que me faltava algo, todos os que conhecia seguiam a sua vida e eu estava parada à espera de um transplante que não fazia ideia de quando viria.
Procurei jovens na mesma situação, mas não encontrei ninguém e foi aí que pela primeira vez pensei que poderia ser interessante criar um projeto para informar os jovens, mas não era o momento. Dez meses depois de começar a diálise, a sensação de que me faltava algo era gigante, então decidi tentar, ganhei coragem e voltei para a faculdade.
Mudar de cidade, estudar, viver numa residência, fazer diálise e retomar a minha vida de antes foi uma aventura. Rapidamente percebi que não tinha tempo para todas as atividades em que estava envolvida antes, mas isso curiosamente não me incomodou tanto como pensei.
Agora sentia que vivia em dois mundos, um em que era a universitária jovem, e o outro em que era doente renal e fazia diálise, para mim eram tão diferentes que não fazia sentido juntá-los. Mas com o tempo percebi que sem eu fazer nada eles se foram juntando, falava na diálise de uma forma natural na minha vida e nos tratamentos contava a minha vida fora dali.
Gostava de sentir que motivava as pessoas a fazer algo para além daqueles tratamentos e então a ideia de que poderia criar um projeto voltou, mas mais uma vez não era o momento. Fiz vários horários de diálise para conseguir conciliar com a minha vida, e sentia que não tinha tempo para mais nada, corria do estágio para as aulas, e das aulas para os tratamentos e no meio disto tinha ainda a minha vida social.
Mas no final do dia tudo valia a pena, já não sentia a falta de nada, estava realizada e isso era tudo o que bastava, mesmo quando o cansaço da diálise levava a melhor. Pensava no transplante, sabia que a qualquer momento ele poderia chegar, mas isso já não era o centro dos meus dias. O tempo foi passando até que em março de 2020 o meu telefone tocou.
Naquele momento nem queria acreditar, a minha vida a mudar de novo, finalmente tinham um rim para mim e ia voltar a ter a vida normal que tinha antes. Mas será que tudo pode ser igual ao que era depois de mais de três anos a ser parte de um mundo tão diferente? A verdade é que não, a insuficiência renal era agora tão parte de mim como o que tinha antes, durante todas horas que passei em clínicas e hospitais aprendi muito sobre os outros e sobre mim mesma, mas também vi muitas coisas que não consigo esquecer, pessoas que desistiram de viver, que acharam que nada mais valia a pena para além da doença.
E foi em casa, durante a quarentena, enquanto pensava em tudo isto, que tive a certeza que estava no momento certo para criar aquele projeto que tinha surgido na minha cabeça quando eu ainda mal tinha começado a fazer diálise. Procurei pessoas e comecei a pôr a minha ideia em prática e alguns meses depois estava disponível o primeiro episódio do Vive, um «podcast» que fala de insuficiência renal de uma forma leve, descontraída, mas sempre muito responsável.
Não falo na minha vida ou nas minhas experiências, falo de vários temas relacionados com a insuficiência renal e trago testemunhos e entrevistas com profissionais, tudo para que no final saibas que é possível aproveitar, descontrair e acima de tudo viver, não à minha maneira, mas à maneira que achares melhor para ti!
Um dia sei que a minha vida vai dar uma nova volta, não sei quando terei que voltar à diálise ou experimentar um novo tratamento, mas seja qual for a situação, quero continuar a acreditar, a aproveitar, a descontrair e, acima de tudo, a viver.