
Foi em 2005 que a vida nos juntou. Conhecemo-nos numa reunião do GDTP (Grupo Desportivo de Transplantados de Portugal), da qual eu fui fundadora, juntamente com a Alcina Ascenção e o Rui Veríssimo. O Paulo foi convidado pelo amigo Paulo Zoio para estar presente nessa mesma reunião, com o objetivo de perceberem, ambos, se queriam fazer parte desta associação desportiva.
Nessa altura, eu e o Paulo estávamos transplantados. No meu caso tinha já sido transplantada em 2002 pela segunda vez. No caso dele, pela primeira vez há pouco mais de um ano. A minha insuficiência renal teve origem numa Púrpura de Henoch-Schonlein quando eu tinha apenas 7 anos. Foi então que iniciei hemodiálise por um período de cerca de 3 anos, metade dos quais em Barcelona, uma vez que em Portugal, nessa altura, havia muito poucas vagas para este tratamento.
Aos 10 anos fui transplantada pela primeira vez no Hospital da Cruz Vermelha. Após 20 anos de transplante e depois de mais cerca de 3 anos de hemodiálise, voltei a ser transplantada, desta vez durante 31 anos. No caso do Paulo, embora tivesse tido vários problemas de saúde durante a infância e a juventude, a sua IRC (insuficiência renal crónica) só foi confirmada aos 21 anos e nesse mesmo ano iniciou a hemodiálise.
Os seus rins foram afetados pela doença autoimune de Síndrome de Goodpasture, que só foi diagnosticada cerca de meio ano após iniciar hemodiálise, quando teve uma hemorragia pulmonar (outra consequência desta síndrome). Devido à sua doença autoimune, foi-lhe dito que não poderia ser transplantado, mas após 10 anos de tratamentos (6 de hemodiálise e 4 de diálise peritoneal), foi informado por uma médica de que, não só poderia, como deveria ser transplantado.
Foi chamado pouco tempo depois para a cirurgia, no ano de 2004, quando tinha 30 anos. Depois disso, a sua vida transformou-se de uma forma positiva. Voltamos à reunião onde nos vimos pela primeira vez. No final desse mesmo dia o Paulo enviou-me uma mensagem para me convidar para tomar um café e conversarmos sobre as nossas histórias e perceber um pouco mais sobre o desporto/exercício no transplante.
A empatia foi mútua e a partir desse momento começámos a encontrar-nos durante algum tempo e a descobrir que tínhamos mais em comum do que apenas a condição de saúde.
Neste momento estamos juntos há quase 20 anos. O Paulo continua com o seu primeiro rim transplantado, mas eu voltei à hemodiálise em 2011, e desde aí que aguardo pelo terceiro transplante. Neste caminho de quase duas décadas, temos enfrentado juntos os altos e baixos que a vida nos tem apresentado, seja relacionado com a saúde ou não.
Porém, o apoio mútuo, bem como o facto de compreendermos a condição um do outro, tem sido fundamental para ultrapassarmos todos os obstáculos. As nossas vidas nunca foram uma linha reta, pelo contrário, têm sido um novelo bem enroladinho e por vezes difícil de encontrar uma ponta.
E a história que aqui vos contamos é um resumo muito resumido, e onde as coisas menos boas vão ficando para trás das costas. Momentos menos positivos, pouco nos condicionaram a vontade de termos uma vida cheia de coisas boas. Aproveitar para estarmos junto da família e dos amigos especiais, que são o nosso pilar e aos quais tudo agradecemos.
Tentamos disfrutar ao máximo das coisas que ambos gostamos, como as nossas viagens, dentro e fora do país, a cultura, o desporto, seja na companhia um do outro, seja na companhia de outras pessoas que nos fazem bem.
Das nossas histórias grandes nasceu uma história gigante de duas pessoas que se amam “Sor(rim)do”.